sexta-feira, 8 de agosto de 2008

     Menino África Leoa

Era África Dia... dia dos meninos negros de Serra Leoa
Meninos com estilingues caçavam pássaros nas florestas 
Da manhã ao entardecer praticavam arte de subir árvores

Meninos que faziam a magica de pedrinhas pularem no rio
De cada pedra na água andar mais rápido do que a outra
Na estação das chuvas, mergulharem na correnteza dos rios
Dos macacos saltarem galhos, aos olhos curiosos dos veados
Do lagarto apagar suas pegadas, na volta ao seu esconderijo
Das formigas carregarem comida para suas pequenas tocas
Barulho assustador do vento assobiando nos telhados de palha
Batuque tambor das crianças, dançando circulos á luz da lua

Menino cantando com mãos em torno do ombro uns dos outros
Caminhando abraçados ao som afro, uma triste história de vida
Fugindo das pegadas da guerra que havia atingido as aldeias
E as palmeiras ... quase paradas no aguardo de alguma coisa
E os cães farejando seus donos na luz do dia se render à noite
E no denso cafezal um pelotão de meninos soldados marchando
Abrindo fogo,  interrompendo o canto dos pássaros e dos grilos
Alhaji, Jumah, Saidu, suas armas tomando o lugar da inocência
Gabrila, Kaloko, Taloi, com rifles nas costas, guerreando ao sol
Meninos andando longe demais de casa... escapando das aldeias
Crianças sozinhas fugindo da própria sombra, por  quilômetros
Da felicidade ser temporária, e de estarmos apenas de passagem

Serra Leoa nublada de densas nuvens cinza, do sol parecer feio

Menino-soldado, pálido sorriso, guerra triste da África Criança!

                                                                                  Maria José Salles Callado / 12.05.08
Amanhecer Criança Biafra

O sol despencava no quintal da África Criança...
Biafra um dia, um segundo dia... da vida não vivida
África de vez quando uma folha caia no chão de lama

Escuridão.... Mudança de dias claros para guerra escura
Madrugada prata um pássaro gritava o desespero da vida
Brisa noturna levando embora a palavra feia da guerra
Guerra da varanda vazia... Da porta da casa trancada
Tribo no meio da relutância do triste quadro do nada
Crianças se acomodando em tabuas na casa sem telhado
Ugwu... Soldado menino magrinho que não tinha crescido
Sem farda, sem botas, sem meio sol amarelo na manga
Brincando de guerra com folhas de bananeira na cabeça
Erguendo nuvens de poeira perseguindo outros meninos
Fazendo sons de tiros com a boca em armas de bambu
Passos andados de sandálias cobertas de poeira marrom
Colecionando estilhaços de metais, coisas que matavam
Fome que roubava a existência de uma infância criança
Choro desalojando a dor que entupia a garganta da alma
Criança medo e terror de andar além do limite da estrada
Criança cabelos cor de ferrugem sem marca de propriedade
Menino negro desatando os nós cegos sufocantes lá de dentro

Criança braços de palito espichando a cabeça fora das cercas
Biafra coagulo coração África, que o mundo todo silenciou...

Maria José Salles Callado  / 04.08.08